quarta-feira, 16 de maio de 2012

Desce a bebida mais forte que o dinheiro dá pra comprar. Como seguirá em frente, preso a essa dor? Mais um gole pra garganta esquecer o que passou. Tá chovendo dentro dele, quase que um temporal. Remoendo mil mazelas de um romance sem igual. Como vai fazer agora sem o seu amor? Vai ter que ter o tempo pra lidar com o que passou. Fica a história pra contar, fica a lembrança que habita, onde não se consegue tocar, onde nada mais se modifica. Fico olhando, ele disfarça, pega e acende um cigarro. Alguém reclama da fumaça de graça ele pede mais um trago. O garçom ignorante bate o copo e diz: - Cabou! Ele não discute e vai embora, como se engolisse o que passou. Passou, como tudo passa e algo em tudo o que passa, fica. Passou porque tudo passa, porque tudo se pacifica!

terça-feira, 24 de abril de 2012


“A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade. Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?”


Puro cérebro sem dor perdido nos labirintos daquilo que tinha
acabado de acontecer. Dor branca, querendo primeiro compreender,
antes de doer abolerada, a dor. Doeria mais tarde, quem sabe, de
maneira insensata e ilusória como doem as perdas para sempre
perdidas, e portanto irremediáveis, transformadas em memórias iguais
pequenos paraísos-perdidos. Que talvez, pensava agora, nem tivessem
sido tão paradisíacos assim.

terça-feira, 10 de abril de 2012

  E se eu brincar de esconde-esconde, te emprestar minhas roupas, dizer que amo seus sapatos, sentar na escada enquanto você toma banho. Beijar seu rosto, segurar sua mão e sair pra andar, não ligar quando você comer minha comida, te encontrar numa lanchonete pra falar sobre o dia, sobre o seu dia e dar risadas da sua paranoia. Te mandar músicas que você não gosta, ver ótimos filmes, ver filmes horríveis e te contar sobre o programa que eu vi ontem a noite enquanto não conseguia dormir. Te querer pela manhã, mas deixar você dormir mais um pouco, te dizer quanto adoro você. Sentar na escada, fumando, até os vizinhos chegarem em casa. Sentar na escada, fumando, até você chegar em casa. Me preocupar quando você está demorando e me surpreender quando você chega cedo. Ir numa festa e dançar. Me arrepender quando estou errada e feliz quando me perdoar. Olhar suas fotos e querer ter te conhecido desde sempre, ouvi sua voz no meu ouvido e ficar assustada quando se irrita... digo que você está linda. Vou contar o pior de mim, e tentar dar o melhor de mim porque você não mereçe nada menor que isso. Responder suas perguntas, mesmo quando eu prefiro não responder e dizer a verdade, tentar ser honesta, porque sei que você prefere . Espera só mais  dez minutos, me deixa chegar mais perto de você e de alguma forma, compartilhar  
um pouco do amor que eu tenho por você.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Um rei me disse que quem deixa ir tem pra sempre e me contou que só foi rei porque pensava assim tão diferente. E eu, que andava assim tão zé, deixei que tudo fosse e decidi olhar pra frente, mas não vi nada. E o rei me disse: "A pressa esconde o que já é evidente. Foi do meu lado que eu achei o que me fez assim tão diferente." E eu, que corria assim tão zé, deixei que tudo fosse e decidi mudar de frente, mas não vi nada. Não leve a mal, eu só queria poder ter outra filosofia, mas não nasci pra conversar com rei . . . 

quinta-feira, 15 de março de 2012




Desligue a música, agora. Seja qual for, desligue. Contemple o momento presente dentro do silêncio mais absoluto. Mesmo fechando todas as janelas, eu sei, é difícil evitar esses ruídos vindos da rua. Os alarmes de automóveis que disparam de repente, as motos com seus escapamentos abertos, algum avião no céu, ou esses rumores desconhecidos que acontecem às vezes dentro das paredes dos apartamentos, principalmente onde habitam as pessoas solitárias. Mas não sinta solidão, não sinta nada: você só tem olhos que olham o momento presente, esteja ele — ou você — onde estiver. E não dói, não há nada que provoque dor nesse olhar.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Sonhei que você sonhava comigo.
Mais tarde, talvez eu até ficasse confuso, sem saber ao certo se fui eu mesmo quem sonhou que você sonhava comigo, ou ao contrário, foi quem sabe você quem sonhou que eu sonhava com você. Não sei o que seria mais provável. Você sabe, nessa história de sonhos — falo o óbvio —, nunca há muita lógica nem coerência. Ou não? Sei que, sem nenhuma dúvida:

Sonhei que você sonhava comigo.
Certo? Não, talvez não esteja nada certo. Também não era isso o que eu queria ou planejava dizer. Pelo menos, não desse jeito embaçado como uma vidraça durante a chuva. Por favor, apanhe aquele pequeno pedaço de feltro que fica sempre ali, ao lado dos discos. Agora limpe devagar a vidraça — quero dizer, o texto. Vá passando esse pedaço de feltro sobre o vidro, até ficar mais claro o que há por trás. Lago, edifício, montanha, outdoor, qualquer coisa. Certamente molhada, porque só quando chove as vidraças embaçam. Será? Não tenho certeza, mas o que quero dizer, disso estou certo, começa assim:

Sonhei que você sonhava comigo.
Parece simples, mas me deixa inquieto. Cá entre nós, é um tanto atrevido supor a mim mesmo capaz de atravessar — mentalmente, dormindo ou acordado — todo esse espaço que nos separa e, de alguma forma que não compreendo, penetrar nessa região onde acontecem os seus sonhos para criar alguma situação onde, no fundo da sua mente, eu passasse a ter alguma espécie de existência. Não, não me atrevo. Então fico ainda mais confuso, porque também não sei se tudo isso não teria sido nem sonho, nem imaginação ou delírio, mas outra viagem chamada desejo. Verdade eu queria muito. Estou piorando as coisas, preciso ser mais claro. Começando de novo, quem sabe, começando agora:

Sonhei que você sonhava comigo.
Depois que sonhei que você sonhava comigo, continuei sonhando que você acordava desse sonho de sonhar comigo — e era um sonho bonito, aquele —, está entendendo? Você acordava, eu não. Eu continuava sonhando, mas na continuação do meu sonho você tinha deixado de sonhar comigo. Você estava acordado, tentando adequar a imagem minha do sonho que você tinha acabado de sonhar à outra ou à soma de várias outras, que não sei se posso chamar de real, porque não foram sonhadas. Mas, se foi o contrário, então era eu, e não você, quem tentava essa adequação — nessa continuação de sonho em que ou eu ou você ou nós dois sonhamos um com o outro. Nos víamos? Quase consegui, agora. Preciso simplificar ainda mais, para começar de novo aqui:

Sonhei que você sonhava comigo.
Depois, fiquei aflito. E quase certo de que isso não tinha acontecido. O que aconteceu, sim, é que foi você quem sonhou que eu sonhava com você. Mas não posso garantir nada. Sei que estou parado aqui, agora, pensando todas essas coisas. Como se estivesse — eu, não você — acordando um pouco assustado do bonito que foi ter tido aquele sonho em que você sonhava comigo. Tão breve. Mas tudo é muito longo, eu sei. Estou ficando cansativo? Cansado, também. Está bem, eu paro. Apanhe outra vez aquele pedaço de feltro: desembace, desembaço. Choveu demais, esfriou. Mas deve haver algum jeito exato de contar essa história que começa e não sei se termina ou continua assim:

Sonhei que você sonhava comigo.
Ou foi o contrário? Seja como for, pouco importa: não me desperte, por favor, não te desperto.